domingo, 17 de abril de 2011

Conto

A sala estava cheia. O ambiente era de grande expectativa. A expectativa das grandes noites. Ao contrário do passado recente, das noites nuas de desgosto, Ana Esquina sentia-se viva. Vida sem sal, não era vida! Tinha passado a ser o seu lema. Mesmo que no seu caso o sal fosse polvilhado de uma imensa doçura.
Desta vez, Ana tinha acertado. Todos os sinais emitidos pelo seu corpo e mente o confirmavam. Sentada na primeira fila da grande sala de espectáculos, aguardava que Romeu entrasse em cena. Sentia-se apaixonada pela vida e pelo seu homem. O seu tempo, a sua vida, tinham renascido!
As noites de insónia e angústia, o medo do escuro, a inquietação da solidão, a constante imaginação em ouvir vozes atrás de cada porta, tudo isso tinha acabado.
Então, fez-se silêncio. As luzes apagaram-se, à excepção de um foco que acompanhava Romeu na sua entrada em palco. Como de costume, trazia um cigarro aceso na mão esquerda e o já insubstituível chapéu de aba larga. Suspenso na mão direita, talvez o grande responsável pela alquimia amorosa em que Romeu e Ana tinham mergulhado desde há algum tempo, um trompete. Ela adorava aquele som quente, profundo e enleante e ele era um executante fantástico.
Da primeira vez que o ouvira tocar, tinha ousado dirigir-se a ele no fim da exibição e pedir-lhe um autógrafo. Romeu não tinha ficado indiferente ao gesto e, nessa mesma noite, tinham ceado juntos. Mais tarde, já de madrugada, com a primeira luminosidade a rasgar o horizonte, numa praia deserta que cuidadosamente escolheram, ele brindou-a com o mais belo, mais puro e mais envolvente solo que daquele instrumento era possível extrair.
Depois, não se separaram mais e ela acompanha-o a todo o lado onde ele vai tocar. Romeu até lhe prometera cortar o bigode, outra imagem de marca sua!
E é sempre aquela música única que lhes continua a alimentar a alma, como desde a primeira vez, qual poção mágica insubstituível na vida de Ana e Romeu.