quarta-feira, 24 de junho de 2009

livro

Uma companhia inseparável


Ainda hoje, passados que são 37 anos e vezes sem conta de leitura após o primeiro contacto com um conjunto de mais de sessenta contos, publicados em seis volumes, recorrentemente me socorro dessas histórias na procura de momentos do puro prazer intelectual, continuando a defrontar-me com a mesma surpresa de espanto e gozo que recolhi na primeira vez que as li.
Imagine-se uma leitura que o convida a abstrair-se da realidade que o cerca, conduzindo-o consciente e prazenteiramente a entrar no cenário, fazendo-o sentir o cheiro de terras, pessoas e coisas, proporcionando-lhe os sons ambientais, desvendando-lhe as personalidades e as expressões dos personagens e apurando o seu interesse e curiosidade pelo desenvolvimento do enredo!
Imagine-se uma personagem dada a conhecer por determinado autor em finais do séc. XIX. Imagine-se essa mesma personagem dotada de capacidades de observação das pessoas e factos e de um extraordinário raciocínio dedutivo lógico associado, que lhe permite observar o que os outros não vêem e solucionar mistérios do crime, aparentemente insolúveis para o comum dos mortais. Imagine-se a surpresa do leitor ao verificar o cunho de indiscutível realidade e verosimilhança das soluções descobertas, irrefutáveis sob qualquer prisma mais ou menos sério ou desconfiado! É a dedução elevada à categoria de ciência exacta!
Imagine-se o smog londrino, como cenário de fundo de todo um desfile de misérias decorrentes da criminalidade prevalecente e a incapacidade da Scotland Yard em responder eficazmente a todas as ocorrências!
Imagine-se a excepcionalidade das suas capacidades intelectuais posta ao serviço do Bem, não pelas prebendas que daí poderiam advir, mas sim pelo prazer da análise científica, sobreposta a qualquer tipo de sentimentalismo, na procura das soluções para explicar os crimes e identificar os criminosos! O único detective consultor do mundo, apelidava-se a ele próprio!
Imagine-se essa personagem como um homem de meia-idade, de estatura elevada, seco de peles, de nariz adunco, nervoso de carácter, apreciador do belo canto e da música clássica, sendo ele mesmo um violinista de mérito!
Imagine-se-o a coabitar, por razões económicas, no 221-b de Baker Street, no centro da Londres vitoriana, com um médico, de apelido Watson, acabado de chegar de uma guerra no Oriente e que se iria transformar no cronista das suas aventuras!
Imagine-se que a sua morada foi criada expressamente pela edilidade de Londres, já que aquele endereço era pura e simplesmente inexistente!
Imagine-se que o aparecimento deste personagem fez cair quase no esquecimento o nome do seu criador e que, até aos nossos dias, foram criados clubes e sociedades em sua honra, em variadíssimas cidades da Europa e da América e a própria internet possui sites que lhe são dedicados!
Imagine-se que as polícias de todo o mundo adoptaram os seus métodos como referenciais de actuação!
Imagine-se como a ficção se pode transformar em realidade!
Imagine Sherlock Holmes, porque ele nunca existiu!


Nuno Ramos

cinzento

Cinzentos são os meus dias, cinzento é o céu que me cobre, cinzento é a cor da alma macerada que me amortalha! Cinzento só e apenas cinzento!
É a manhã que teima em não brilhar! A tarde escura e desesperançada! A noite prenhe de estrelas turbulentas de angústia!
Como é que se muda de cor? Mesmo para branco e preto, como é que se muda?
Basta querer? E como é que se quer, quando o cinzento é a cor preferida da alma?
Espera-se pelo sol na alma? Aceita-se o cinzento? Tolera-se o cinzento? Espera-se com esperança sem tempo?
E como é que cheguei aqui? Que passos transviados aqui me conduziram?
E, no entanto, sobrevivo! O sangue corre nas minhas veias!
E chega sobreviver? E a vida vivida, para onde foi? E a alma? E o sol? E o desejo? E o amor?
Olho sem ver, ouço sem ouvir, toco sem sentir!
Até quando? Até onde?
De onde venho? Para onde vou? O que fiz, sem fazer? O que sinto sem sentir? O que desejo sem querer?
Quem me pintou de cinzento? Ou deixei-me pintar?
De que serve o cinzento, quando a pele me é estranha?
Porque triunfou a desconfiança?
Podia ter sido diferente?
Porquê perguntar todas as perguntas do mundo?
Tive-te sem te ter, tiveste-me sem me ter! De que valeu?
Se valeu, não vale!
Não voltes! Não serás bem vinda! Não te quero!
Não quero a raiva! Não quero a ira! Não quero o desengano! Não quero a tristeza!
Quero a paz, a luz, a alegria, a pureza!
Quero a minha alma!
Quero a minha vida!
Quero o sonho!
Quero o amor!
E basta querer?
E como é que se quer?
E, no entanto, sobrevivo! O sangue corre nas minhas veias!
Será que ainda poderei ver, ouvir, sentir?
Será que a paz, a luz, a alegria, a pureza, a alma, a vida, o sonho, o amor, todos juntos, poderão estar mesmo aqui ao meu lado, à espreita, à espera de um sinal?
Não voltes! Não serás bem vinda! Não te quero!
Não quero a raiva! Não quero a ira! Não quero o desengano!
Se valeu, não vale!


Nuno Ramos