Uma companhia inseparável
Ainda hoje, passados que são 37 anos e vezes sem conta de leitura após o primeiro contacto com um conjunto de mais de sessenta contos, publicados em seis volumes, recorrentemente me socorro dessas histórias na procura de momentos do puro prazer intelectual, continuando a defrontar-me com a mesma surpresa de espanto e gozo que recolhi na primeira vez que as li.
Imagine-se uma leitura que o convida a abstrair-se da realidade que o cerca, conduzindo-o consciente e prazenteiramente a entrar no cenário, fazendo-o sentir o cheiro de terras, pessoas e coisas, proporcionando-lhe os sons ambientais, desvendando-lhe as personalidades e as expressões dos personagens e apurando o seu interesse e curiosidade pelo desenvolvimento do enredo!
Imagine-se uma personagem dada a conhecer por determinado autor em finais do séc. XIX. Imagine-se essa mesma personagem dotada de capacidades de observação das pessoas e factos e de um extraordinário raciocínio dedutivo lógico associado, que lhe permite observar o que os outros não vêem e solucionar mistérios do crime, aparentemente insolúveis para o comum dos mortais. Imagine-se a surpresa do leitor ao verificar o cunho de indiscutível realidade e verosimilhança das soluções descobertas, irrefutáveis sob qualquer prisma mais ou menos sério ou desconfiado! É a dedução elevada à categoria de ciência exacta!
Imagine-se o smog londrino, como cenário de fundo de todo um desfile de misérias decorrentes da criminalidade prevalecente e a incapacidade da Scotland Yard em responder eficazmente a todas as ocorrências!
Imagine-se a excepcionalidade das suas capacidades intelectuais posta ao serviço do Bem, não pelas prebendas que daí poderiam advir, mas sim pelo prazer da análise científica, sobreposta a qualquer tipo de sentimentalismo, na procura das soluções para explicar os crimes e identificar os criminosos! O único detective consultor do mundo, apelidava-se a ele próprio!
Imagine-se essa personagem como um homem de meia-idade, de estatura elevada, seco de peles, de nariz adunco, nervoso de carácter, apreciador do belo canto e da música clássica, sendo ele mesmo um violinista de mérito!
Imagine-se-o a coabitar, por razões económicas, no 221-b de Baker Street, no centro da Londres vitoriana, com um médico, de apelido Watson, acabado de chegar de uma guerra no Oriente e que se iria transformar no cronista das suas aventuras!
Imagine-se que a sua morada foi criada expressamente pela edilidade de Londres, já que aquele endereço era pura e simplesmente inexistente!
Imagine-se que o aparecimento deste personagem fez cair quase no esquecimento o nome do seu criador e que, até aos nossos dias, foram criados clubes e sociedades em sua honra, em variadíssimas cidades da Europa e da América e a própria internet possui sites que lhe são dedicados!
Imagine-se que as polícias de todo o mundo adoptaram os seus métodos como referenciais de actuação!
Imagine-se como a ficção se pode transformar em realidade!
Imagine Sherlock Holmes, porque ele nunca existiu!
Nuno Ramos