domingo, 17 de abril de 2011

Conto

Entretanto, ela aparece.
- O que está a fazer?
- Olhe, ia mesmo agora a passar e dei de caras com um indivíduo jovem, com este objecto na mão e que lhe estava a vandalizar o carro! Hoje em dia, não se pode estar sossegado em lado nenhum! Veja lá! Concerteza estava a fazer isto por puro prazer, ou então, posso especular, estava a marcar o seu carro, picando o farol, para mais tarde o resto do gang se encarregar de o roubar!
- A senhora tem inimigos que lhe pudessem encomendar este servicinho? Se calhar o melhor mesmo é chamar a polícia, embora pense que eles não vão conseguir fazer nada. A senhora é que decide!
Concorda comigo? Então acho que o melhor é esquecer este incidente, meter-se no seu automóvel e ir à sua vidinha, que eu vou à minha.
Um resto de bom dia, sem mais chatices. Se precisar da minha ajuda, pode-me ligar. O meu telemóvel é 9…..

Conto

- O amigo acredita em Deus?
A pergunta apanhou-me desprevenido. Deus? Eu estava dentro de um táxi, tinha fechado a porta e indicado o destino.
Ainda pensei em sair, mas o carro já corria, às curvas, por entre o trânsito transtornado de Lisboa. Assim, acomodei-me no assento, suspirei fundo e preparei-me para o pior.
O taxista, Chico Lopes, nascido e criado em Alfama estava de péssimo humor. A Albertina, sua mulher, tinha-lhe pedido o divórcio. Lopes estava transtornado da vida. A mente, em turbilhão, não conseguia serenar e uma raiva crescente dava-lhe um ar furibundo.
Foi aí que o passageiro entrou. Lopes nem reparou se o carro estava parado ou em andamento. Nem sequer ouviu o que o passageiro lhe dissera ao entrar na viatura.
O amigo acredita em Deus? disparou sem aviso! José Augusto Borges, o passageiro, ao princípio não entendeu. Mas começou a perceber um bocadinho melhor quando, ao contrário dos taxistas “normais”, esta não voltara a abrir a boca; apenas acelerava e acelerava, cada vez mais. Os semáforos passaram a monocolores e veículos e transeuntes fugiam da frente do táxi, em autênticos voos de salvação de vida.
Augusto Borges, agarrado ao assento, também não voltara a falar. A corrida continuava, Lisboa fora, com autênticos milagres a acontecerem para o acidente não se verificar.
Foi por alturas do alto de S. João, que Augusto Borges, pároco de uma freguesia, começou a pensar que o destino o trouxera para o encontro supremo com o Criador….que raio de maneira de chegar à entrevista. Que culpa tinha ele que aquele condutor parecesse possuído pelo diabo..!?
Ele sabia que Deus existia e nesse dia ia ter a prova provada disso mesmo! Sentia esse momento cada vez mais próximo.
Foi aí que, coberto de suor, se soergueu na cama e respirou de alívio. Tinha sido só um pesadelo…uff!, ainda não tinha sido desta!

Conto

Sons da Praça Camões, sexta-feira, 21H00
Vêm cheios de esperança! Cachecol ao pescoço, com a cara animada pela visão da vitória. Queriam um táxi. Pelo menos, foi essa a única palavra que lhes percebi. Espero que amanhã levem pela medida certa. Foram-se afastando, cruzando-se com duas espanholas que interpelavam o horário do eléctrico, que lhes respondia no mesmo idioma. Mais abaixo, o território era alemão. Risadas e boa disposição.
Silêncio é que não!
Em fundo, o rodado dos pneus dos automóveis e o som metálico da circulação dos eléctricos transmitiam o carácter urbano da praça. E mais risos e mais vozearia indistinta.
Silêncio é que não!
E o assobio…esse ficou-me no ouvido! Assobiar é das coisas mais contagiosas que existem. Deu-me logo vontade de pegar na deixa e ir por ali fora, sem pauta mas com sentimento.
E, em cima de tudo, fora da rima e do compasso, o toque da modernidade, o insubstituível toque do telemóvel, augurando sabe-se lá o quê…!!!
Silêncio é que não!

Conto

E se um dia alguém acordasse e o mundo não tivesse som!?
Foi o que aconteceu ao Arnesto. No dia anterior, tinha feito o seu habitual mergulho de profundidade, junto a Sesimbra. Só que desta vez, algo correra mal, muito mal. Ambos os tímpanos rebentados. A recuperação iria ser lenta e dolorosa. Como é que se vive sem ouvir? Arnesto, alma de lutador, não se entregou ao desespero.
Descobriu a Associação de Portugal de surdo-mudos e no mesmo dia em que saiu do hospital, dirigiu-se para lá. Só. Enfrentar o touro, logo de início, sem forcados de ajuda. A muito custo fez-se entender!
Inscreveu-se num curso de linguagem gestual e foi ultrapassando as barreiras que lhe iam aparecendo, na comunicação com os outros. Passados dois meses, já acompanhava um grupo de surdo-mudos que, à sexta-feira à noite, se juntavam num restaurante do Parque das Nações. Eram conhecidos pelos Tambores do Tejo!
Já recuperado, Arnesto vive agora entre dois mundos. O anterior ao acidente e o do silêncio em que ganhou asas que não sabia que possuía.
Todos os dias pode ser visto no telejornal do segundo canal, num quadrado pequeno do écran, a transmitir as notícias através da sua nova linguagem:

Viva o Arnesto!

Conto

A sala estava cheia. O ambiente era de grande expectativa. A expectativa das grandes noites. Ao contrário do passado recente, das noites nuas de desgosto, Ana Esquina sentia-se viva. Vida sem sal, não era vida! Tinha passado a ser o seu lema. Mesmo que no seu caso o sal fosse polvilhado de uma imensa doçura.
Desta vez, Ana tinha acertado. Todos os sinais emitidos pelo seu corpo e mente o confirmavam. Sentada na primeira fila da grande sala de espectáculos, aguardava que Romeu entrasse em cena. Sentia-se apaixonada pela vida e pelo seu homem. O seu tempo, a sua vida, tinham renascido!
As noites de insónia e angústia, o medo do escuro, a inquietação da solidão, a constante imaginação em ouvir vozes atrás de cada porta, tudo isso tinha acabado.
Então, fez-se silêncio. As luzes apagaram-se, à excepção de um foco que acompanhava Romeu na sua entrada em palco. Como de costume, trazia um cigarro aceso na mão esquerda e o já insubstituível chapéu de aba larga. Suspenso na mão direita, talvez o grande responsável pela alquimia amorosa em que Romeu e Ana tinham mergulhado desde há algum tempo, um trompete. Ela adorava aquele som quente, profundo e enleante e ele era um executante fantástico.
Da primeira vez que o ouvira tocar, tinha ousado dirigir-se a ele no fim da exibição e pedir-lhe um autógrafo. Romeu não tinha ficado indiferente ao gesto e, nessa mesma noite, tinham ceado juntos. Mais tarde, já de madrugada, com a primeira luminosidade a rasgar o horizonte, numa praia deserta que cuidadosamente escolheram, ele brindou-a com o mais belo, mais puro e mais envolvente solo que daquele instrumento era possível extrair.
Depois, não se separaram mais e ela acompanha-o a todo o lado onde ele vai tocar. Romeu até lhe prometera cortar o bigode, outra imagem de marca sua!
E é sempre aquela música única que lhes continua a alimentar a alma, como desde a primeira vez, qual poção mágica insubstituível na vida de Ana e Romeu.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010